Sistemas lógicos que sustentam programas de computador têm impacto crescente no cotidiano


Baseado no artigo original da Revista Pesquisa FAPESP: O mundo mediado por algoritmos


Você já parou para pensar que praticamente tudo o que consumimos na internet — das notícias que lemos aos filmes que assistimos, da música que ouvimos ao modo como somos avaliados em processos judiciais — pode ser mediado por algoritmos? Eles estão por trás de cada clique, cada recomendação, cada previsão de trânsito ou mesmo dos preços que pagamos em apps de transporte. Invisíveis aos olhos, esses sistemas de instruções programadas moldam o nosso cotidiano de formas cada vez mais profundas.

No mercado financeiro, por exemplo, robôs programados para reagir rapidamente às oscilações das ações já são responsáveis por mais de 40% das negociações na bolsa brasileira. Nos Estados Unidos, esse número chega a 70%. Isso significa que grande parte do sobe e desce das ações é fruto de decisões automáticas baseadas em cálculos matemáticos e estratégias predefinidas.

O funcionamento de um algoritmo pode parecer complexo, mas tudo começa com uma necessidade ou um problema a ser resolvido. Primeiro, define-se com clareza o objetivo. Depois, descreve-se o passo a passo de forma compreensível, que finalmente será transformado em linguagem de programação. Só assim o computador "entende" e consegue executar os comandos. Esse processo muitas vezes exige a colaboração de profissionais de diversas áreas, como médicos, engenheiros, psicólogos ou sociólogos, garantindo que a solução criada realmente atenda às necessidades específicas de cada área.

Um breve histórico…

O termo "algoritmo" tem origens que remontam ao século IX, com o matemático árabe Al-Khwarizmi, cujo nome deu origem à palavra. Mas foi só no século XX, com o avanço dos computadores, que eles ganharam protagonismo no mundo digital. Hoje, com o crescimento do Big Data e a capacidade de processamento cada vez maior das máquinas, os algoritmos evoluíram para formas mais sofisticadas, como a Inteligência Artificial .


Ilustração de Al-Khwarizmi

Ilustração de Al-Khwarizmi


Um grande marco dessa evolução foi o embate entre o Deep Blue, supercomputador da IBM, e o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, em 1997. Mais recentemente, o Alpha Go, desenvolvido pela DeepMind (subsidiária do Google), surpreendeu ao derrotar os melhores jogadores de Go, um jogo considerado mais complexo que o xadrez. Assista ao documentário *AlphaGo* no YouTube.

As aplicações revolucionárias dos algoritmos

No Brasil, a criatividade aplicada aos algoritmos também gera frutos notáveis. O cientista Anderson Rocha, do Instituto de Computação da Unicamp, criou ferramentas de computação forense que ajudam a Polícia Federal a identificar fraudes em fotos e vídeos digitais. Um dos casos onde o programa está sendo bastante usado é na automatização de investigações sobre pornografia infatil. Já o IME-USP desenvolveu algoritmos para identificar parasitas em exames laboratoriais com muito mais precisão.

A Hoobox Robotics foi além: criou um sistema que permite a pessoas tetraplégicas controlarem cadeiras de rodas motorizadas apenas com expressões faciais. O software reconhece 11 expressões diferentes e as traduz em comandos de movimento. Saiba mais em: site. Na pecuária, a Projeta Sistemas desenvolveu o "Olho do Dono", que estima o peso de bois através de imagens 3D, sem precisar submetê-los ao estresse da balança. Para quem perdeu um animal de estimação, a startup SciPet criou o Crowd Pet. O app cruza fotos de animais perdidos com imagens captadas nas ruas, utilizando reconhecimento facial animal e geolocalização para ajudar na busca.

Problemas éticos e perspectivas futuras

Mas nem tudo são flores no mundo dos algoritmos. Questões éticas e de privacidade emergem com força. Muitos desses sistemas permanecem opacos, até mesmo para quem os desenvolve. Enquanto um simples aplicativo para smartphone pode ter cerca de 10 mil linhas de código, plataformas como o Google somam mais de 2 bilhões. Em projetos tão complexos e frequentemente terceirizados, nem mesmo os próprios programadores conseguem apontar o papel de cada trecho de código — e há, inclusive, algoritmos capazes de escrever ou modificar outros algoritmos, o que torna tudo mais complexo. Os bancos de dados associados também são tratados como segredos empresariais. O histórico de dados acumulados pela Uber, Instagram, X, Netflix ou Spotify, por exemplo, é parte substancial do valor dessas empresas, criando barreiras quase intransponíveis para novos concorrentes.